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AnálisePor WhaTools26 de outubro de 20269 min de leitura

Como o WhatsApp virou o palanque das eleições brasileiras, de 2018 a 2026

Em 2018 a eleição presidencial correu por grupos fechados e disparos em massa pagos que ninguém de fora conseguia ver. Em 2026 correu por canais públicos com milhões de seguidores, registrados no TSE. O que mudou no meio do caminho, dos limites de encaminhamento do WhatsApp e das regras do TSE à chegada dos canais, e o que continuou exatamente igual.

No domingo à noite, poucas horas depois de conquistar o quarto mandato, Lula disse a uma multidão na Avenida Paulista que daqui para a frente vai falar com os apoiadores por um canal de WhatsApp, e não pela imprensa. Um canal administrado por um deputado, André Janones, que tinha saído de uns 55 mil seguidores para mais de 10 milhões nas três semanas antes da votação. Contamos como esse canal funcionava, missão por missão.

Oito anos atrás, a disputa presidencial também foi travada no WhatsApp, mas quase tudo aconteceu longe dos olhos de quem estava de fora. Este texto conta como uma coisa virou a outra. É uma história sobre o WhatsApp, sobre o TSE e sobre um país que faz política no grupo da família.

Por que o WhatsApp, e por que o Brasil

O WhatsApp está em quase todo celular no Brasil. Em 2020, uma pesquisa do Mobile Time com a Opinion Box o encontrou instalado em 99% dos smartphones brasileiros. As pessoas usam para a família, a igreja, o trabalho, a escola e para comprar coisas.

O preço ajudou a deixá-lo tão central. Durante anos, as operadoras vendiam planos pré-pagos com "zero rating": WhatsApp e Facebook não gastavam o pacote de dados. Luca Belli, pesquisador da FGV, mostrou em 2018 que quase três quartos dos internautas brasileiros usavam planos pré-pagos em 2016, segundo o CETIC.br. Se o WhatsApp é de graça e o resto da internet não, receber uma notícia política não custa nada e checar custa dados.

Então a política chega no Brasil como todo o resto: encaminhada num grupo por alguém que você conhece.

2018: a eleição que rodou no escuro

Em 2018, Jair Bolsonaro concorreu por um partido pequeno, com pouquíssimo tempo de TV, e venceu. Boa parte da campanha dele rodou em grupos de WhatsApp organizados como uma pirâmide, com o conteúdo descendo dos grupos centrais até o grupo da família de cada um. Já escrevemos sobre como essa máquina funcionava.

Dez dias antes do segundo turno, a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, revelou que empresas estavam comprando pacotes de disparo em massa contra o PT, com contratos de até R$ 12 milhões. Se fosse verdade, era ilegal duas vezes: empresa não pode doar para campanha no Brasil, e o gasto nunca foi declarado. A Havan, uma das empresas citadas, negou.

Um ano depois, o WhatsApp admitiu o essencial. Em outubro de 2019, num festival em Medellín, o responsável da empresa por eleições, Ben Supple, disse que a eleição de 2018 teve disparos em massa feitos por empresas que violaram os termos do WhatsApp para alcançar um número enorme de pessoas. Fazer campanha no WhatsApp não tem problema, disse ele, desde que seja orgânico, sem ferramentas automatizadas nem envio em massa. O WhatsApp baniu mais de 400 mil contas brasileiras durante a campanha de 2018.

O que importa em 2018 é que quase tudo era invisível. Grupos são fechados. Ninguém de fora via o que estava sendo mandado, por quem nem até onde chegava. Pesquisadores e checadores precisavam entrar em grupos públicos para ter uma amostra do que circulava.

De 2019 a 2022: as regras correm atrás

O WhatsApp e o TSE passaram os quatro anos seguintes tentando dificultar uma repetição de 2018.

O WhatsApp foi atrás do encaminhamento. Em janeiro de 2019, limitou o encaminhamento a cinco conversas por vez no mundo todo, uma regra que tinha testado primeiro na Índia. Em abril de 2020 veio um segundo limite: uma mensagem que já foi encaminhada muitas vezes só pode ir para uma conversa por vez e ganha o selo de setas duplas. Os dois continuam valendo e estão na nossa tabela de limites do WhatsApp.

O TSE foi atrás do disparo em massa. A resolução de propaganda de 2019, a 23.610, proíbe mensagens de campanha enviadas em massa sem o consentimento do destinatário ou com ferramentas fora das que o próprio aplicativo oferece. Nas eleições municipais de 2020, o tribunal e o WhatsApp criaram um canal de denúncia de disparos suspeitos. Foram 4.759 denúncias, e 1.004 contas foram banidas, embora o WhatsApp tenha dito que já tinha banido a maioria delas por conta própria.

Em 2022 estava em jogo a revanche entre Lula e Bolsonaro. O WhatsApp assinou um acordo com o TSE e segurou no Brasil o lançamento das Comunidades, o recurso para reunir vários grupos sob o mesmo guarda-chuva, até depois da eleição. A empresa disse que foi uma decisão própria, e não um acordo com o tribunal. Bolsonaro atacou a medida em público mesmo assim.

Naquele ano a esquerda reagiu nas redes com muito mais força do que em 2018, e Janones foi uma das vozes mais barulhentas. O TSE mandou derrubar posts dos dois lados. Lula venceu com 50,9%.

E não acabou ali. Nos dias anteriores a 8 de janeiro de 2023, quando bolsonaristas invadiram o Congresso, o Planalto e o Supremo em Brasília, convites para a "Festa da Selma", código para o ataque, circularam no WhatsApp, no Twitter, no Facebook e no TikTok. As redes montadas em 2018 continuavam lá.

2023 e 2024: chegam os canais

Em 13 de setembro de 2023, o WhatsApp lançou os Canais no Brasil, com 16 veículos brasileiros como parceiros de lançamento. Um canal é outra coisa que um grupo. Só os administradores publicam. Os seguidores não se veem e não podem responder, só reagir ou votar em enquetes. Não há limite de membros. As notificações vêm desligadas, então o canal fica na aba Atualizações até você ir lá olhar. Temos um guia sobre canais para organizações políticas e sociais.

Para as eleições, o que mais importa é que um canal é público. Qualquer pessoa pode encontrá-lo no aplicativo e ler todos os posts, com as contagens de reações e encaminhamentos, sem nem precisar seguir.

Nas eleições municipais de 2024, o TSE criou regras para inteligência artificial. A Resolução 23.732 exige que conteúdo de campanha feito ou alterado com IA diga isso, e proíbe deepfakes de candidatos.

2026: a eleição dos canais

Quando a campanha de 2026 começou, os canais dos próprios partidos ainda eram pequenos. Em 28 de setembro, seis dias antes do primeiro turno, o PT era o partido mais seguido do Brasil no WhatsApp, com 36.413 seguidores. O PL tinha 19.693. A maioria dos partidos nem tinha canal oficial.

A ação estava nos canais comandados por pessoas. Depois do primeiro turno, o Exército do Lula, do Janones, foi de 55 mil seguidores para mais de 10 milhões, mandando "missões" com hora marcada para subir hashtags, compartilhar vídeos e fazer buscas no Google. Do lado de Flávio Bolsonaro, a Tropa do Flávio, do deputado Nikolas Ferreira, chegou a cerca de 2,1 milhões. Os dois canais eram maiores do que o de qualquer partido. Em 26 de outubro o canal do próprio PT tinha chegado a 510.301 (dá para acompanhar cada leitura no nosso ranking do Brasil), e mesmo assim tinha mais ou menos um vigésimo do tamanho do canal do Janones.

A grande diferença em relação a 2018 é que todo mundo podia ver o que estava acontecendo. Quando a campanha do Flávio levou o Exército do Lula ao TSE, a assessoria de combate à desinformação do tribunal abriu a página pública do canal e escreveu um relatório de 21 páginas com o que encontrou lá: as missões, os horários, prints dos contadores de encaminhamento (344 mil num único texto-convite). Em 2018, ninguém conseguiria fazer um relatório assim sobre uma rede de grupos fechados em um dia.

Essa visibilidade tem limites. O mesmo relatório registrou que mensagens tinham sido apagadas e editadas, e que só a Meta conseguiria reconstruir o histórico completo. E quem faz o trabalho pesado continua sendo o encaminhamento: o post nasce no canal, mas é no grupo da família que ele é lido. A ordem da Tropa do Flávio na noite do debate, "manda pra todos os grupos e listas", faria todo sentido em 2018.

O tribunal mudou as regras no meio da campanha. Em 16 de outubro, o TSE decidiu que um canal de WhatsApp é considerado vinculado a uma campanha se cumprir qualquer um de seis critérios, como dinheiro da campanha, equipe da campanha ou o link divulgado nos perfis oficiais. Canais vinculados precisam ser registrados na Justiça Eleitoral e podem ser desativados até isso acontecer. Uma proposta para desligar todo canal político com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas antes do segundo turno ficou para depois da eleição.

Flávio liderou o primeiro turno por 47% a 45%. Lula venceu o segundo por 51,79% a 48,21%, a primeira vez que o líder do primeiro turno perdeu um segundo turno presidencial no Brasil.

O que mudou e o que não mudou

Eleição201820222026
Formato principalGrupos fechados, disparos em massa pagosGrupos mais perfis públicos de militantesCanais públicos com milhões de seguidores
EncaminhamentoAté 20 conversas de uma vez5 conversas, ou 1 para "encaminhada com frequência"5 conversas, ou 1 para "encaminhada com frequência"
O que o tribunal viaQuase nada em tempo realDenúncias pelo canal com o WhatsAppCada post ao vivo, com os contadores
Regra principalProibição de dinheiro de empresa não declaradoProibição de disparo em massa sem consentimento (2019)Canais vinculados a campanhas precisam de registro

O formato saiu do escondido para o público, e a lei passou de perguntar quem pagou para perguntar quem comanda o canal. O que não mudou é onde a política vai parar no Brasil: num encaminhamento no grupo, de alguém em quem você confia, lido num celular onde o WhatsApp está sempre aberto.

O que vem pela frente

O TSE deixou para depois da eleição o debate sobre os grandes canais políticos, então isso vem agora. Janones diz que o Exército do Lula vai seguir ativo no quarto mandato de Lula, com novas missões e uma meta de 12 ou 13 milhões de seguidores. Ou seja, o Brasil agora tem um presidente que diz que vai falar com a base por um canal comandado por alguém de fora do governo, e uma Justiça Eleitoral que acabou de escrever suas primeiras regras para canais.

As próximas eleições no Brasil são as municipais de 2028. Até lá a gente continua acompanhando os canais de WhatsApp dos partidos, e os números ficam no nosso conjunto de dados aberto.

Perguntas frequentes

Por que o WhatsApp é tão importante nas eleições brasileiras?
Ele está instalado em quase todo smartphone no Brasil (99% numa pesquisa Mobile Time/Opinion Box de 2020), e durante anos muitos planos pré-pagos não cobravam dados por ele. O conteúdo político chega como todo o resto: encaminhado em grupos de família, igreja e bairro por pessoas que o leitor conhece.
O que aconteceu no WhatsApp na eleição de 2018?
Boa parte da campanha de Jair Bolsonaro rodou em redes de grupos de WhatsApp. A Folha de S.Paulo revelou que empresas pagaram disparos em massa contra o PT, o que seria ilegal no Brasil. Em 2019 o WhatsApp reconheceu que empresas fizeram disparos em massa violando os termos do aplicativo, e a plataforma baniu mais de 400 mil contas brasileiras durante aquela campanha.
Disparo em massa no WhatsApp é permitido nas eleições?
Não. A Resolução 23.610/2019 do TSE proíbe mensagens de campanha enviadas em massa sem o consentimento do destinatário ou com ferramentas fora das que o aplicativo oferece. Fazer campanha comum no WhatsApp, como um canal que as pessoas escolhem seguir, é permitido.
Quais são as regras do TSE para canais de WhatsApp em 2026?
Desde 16 de outubro de 2026, um canal é considerado vinculado a uma campanha se cumprir qualquer um de seis critérios, como usar dinheiro ou equipe da campanha, ou ter o link nos perfis oficiais da campanha. Canais vinculados precisam ser registrados na Justiça Eleitoral e podem ser suspensos até isso acontecer. Veja como o primeiro canal suspenso voltou ao ar.
Para quantas conversas dá para encaminhar uma mensagem no WhatsApp?
Cinco por vez. Uma mensagem já marcada como "encaminhada com frequência" só pode ir para uma conversa por vez. A lista completa está na nossa tabela de limites do WhatsApp.